Escrito pelo acadêmico Sérgio Antônio de Paula Almeida, Cavaleiro Pontifício da OESSJ, o artigo traz memórias de sua infância e unifica o universo da devoção popular à importância do Patrimônio Sacro de nossas igrejas e comunidades. Transcrevemos a seguir na íntegra, o texto que também está inscrito na memória do Livro Tombo III da Igreja Matriz de Santo Antônio, patrimônio da igreja Matriz de Santo Antônio nesta cidade de Miraí - MG. Trata-se portanto de um artigo patrimonial religioso, e traz em seu conteúdo contextos da doutrina Católica.
Nossa
Senhora das Dores – Imagem de Amor e Devoção
Nossa fé é atemporal. Herdamos daqueles que mais amamos, e levamos para a vida. Fé e Devoção fazem parte da doutrina, nascem dela. Possivelmente são os frutos mais belos e perenes de toda a cristandade.
Das memórias mais tenras da infância frequentando a liturgia da Igreja, lembro em particular da semana Santa. Toda a segunda feira a procissão com a imagem do Senhor dos Passos rumava para a Capela de São Geraldo. Ali, no momento de devoção e gratidão, junto à família, caminhávamos atrás na procissão, perto da imagem do Senhor dos Passos. A família rezava unida, em silêncio. Ali estava a primeira catequese recebida, sustentada pela fé, forjada com devoção de uma Graça alcançada. Na quarta-feira, a comunidade participava da liturgia da Procissão do Encontro. Acompanhávamos a imagem de Nossa Senhora das Dores saindo da Capela de São Sebastião, até a praça Antônio Carlos onde era tradicionalmente proferido o Sermão do Encontro.
As décadas se passaram, mas a fé, embasada na doutrina, continua sólida como parte da vida de todos os fiéis desta porção do rebanho que cotidianamente se dirigem aos átrios da igreja Matriz para rezar. E neste movimento continuo da cristandade, todos temos um habito comum, legítimo de nossa doutrina, na maioria das vezes pouco entendida: devoção às imagens. Mas o que é a devoção às imagens na Igreja Católica? Diz o Catecismo da Igreja: “As santas imagens nas igrejas e casas servem para despertar e alimentar a fé no mistério de Cristo. Por meio do ícone de Cristo, adora-se a Ele; por meio das imagens da Virgem Maria, dos anjos e dos santos, veneram-se as pessoas representadas.” (parágrafo 1192) ... Ensina, ainda: “A honra prestada a uma imagem dirige-se à pessoa a quem ela representa. Quem venera uma imagem, venera nela a pessoa que nela está representada. O culto sagrado não se detém na imagem como matéria, mas orienta-se para o Deus encarnado”. (parágrafo 2132).
Retornando no tempo, entre as muitas memórias que cremos fazer parte da comunidade, uma é especial e se dirige a esmagadora maioria dos fiéis: a veneração à imagem da Virgem Maria. Trata-se de uma devoção única. Os filhos sempre acompanhando a Mãe, como se estivesse toda a Igreja obedecendo e cumprindo o desejo amoroso de Jesus Crucificado dizendo: “filho, eis aí tua Mãe”. (João 19:25-27). Mas esta vontade de estar ao lado da Mãe não é um milagre do cristianismo. É compaixão e amor, puro e direcionado em orações ao coração mais doce da criação Divina: Ela, nascida e concebida Imaculada. A “Bem Aventurada” (Lucas 1,48) filha de Deus. A que se tornou, pela Graça Divina e apesar da pequenez humana, Sacrário Vivo da Salvação. É Maria, Angelical e Serena. Compreendida por seus filhos fieis desde a adoção da Cruz no Calvário. Aqui, nesta igreja Matriz, entre as muitas imagens de santos que o Templo abriga, destaca-se a imagem de Nossa Senhora das Dores.
Imagem em tamanho natural, de origem incerta, apesar dos inúmeros murmúrios de fiéis e menções do saudoso Sebastião Acácio Mateus, sacristão servo de Deus por mais de 70 anos na comunidade, e de intervenções de Dinorá, nos tempos do Monsenhor Ernesto Tancredo. Dinorá cuja habilidade artística favoreceu a restauração de inúmeras das imagens da Matriz. Entre todas, esta imagem da Virgem é magnífica. Já se ouviu dizer ser de origem espanhola, alguns dizem francesa, talvez. Mas não existem registros, aqui ou onde quer que seja sobre a sua verdadeira origem. Um vácuo no tempo e memória da sociedade miraiense que permitem retrair a linha histórica para o início dos anos de 1900, um pouco antes talvez. O que se sabe de concreto: seu entalhamento em madeira apresenta suavidade, doçura e sofrimento, recolhido no seu coração transpassado. Coração que soube doar, amar e perdoar. Imagem que traz em seu rosto a dor materna ao olhar para a cruz e ver seu único Filho imolado em reparação de nossos pecados.
Maria,
Mãe de Jesus Cristo, Nossa Senhora das Dores, rogai por nós!
Sérgio Antônio de Paula Almeida
Acadêmico – Academia Miraiense de Letras
Cadeira I – Patrono: Alberto Montalvão
