Silêncio e Nostalgia. A Restauração do Relógio da Torre da Igreja Matriz de Santo Antônio de Miraí
A silenciosa torre da Igreja Matriz de Santo Antônio na cidade de Miraí, há mais de um século, abriga um dos maiores tesouros da relojoaria latino-americana. Trata-se de um exemplar genuíno dos famosos relógios Michelini. A fábrica, foi fundada no início do século XX por Vitaliano Michelini e José Michelini na cidade de São Paulo/Brasil. Segundo Célia de Bernardi, o primeiro relógio Michelini foi instalado em passeio público na fachada da Casa Hanau, a mais famosa joalheria da cidade de São Paulo no início do século XX. Ao longo de aproximadamente cinco décadas, a empresa da família de imigrantes italianos fabricou mais de 1200 máquinas.
No início da segunda década do século XX, Miraí aos poucos tornava-se a mais promissora Freguesia de seu entorno. Seu maior patrimônio edificado, símbolo de devoção e labor comunitário recebeu durante a grande reforma e embelezamento de 1911 sob a administração de padre Dario Moura, um símbolo da potência econômica de sua comunidade. Não existem registros de sua chegada, contudo é provável que chegara pela linha férrea da Leopoldina Railway Company Limited (LRC), atravessando os cafezais.
Narra a memória histórica da Igreja Matriz de Santo Antônio que o mecanismo foi instalado entre os meses de outubro e novembro de 1911, no período final da reforma estrutural, sendo parte do projeto de embelezamento do prédio o alongamento da torre da Matriz. A nova estética trouxe para a construção a imponência da verticalidade da torre, preservando em seu entorno e fechada as antigas cornijas e o vão circular, criado décadas atrás. Traz o livro Tombo I da Matriz de Santo Antônio breve memória histórica escrita pelo icônico Monsenhor Ernesto Tancredo, retirada do jornal “O Mirahy”: No dia da inauguração, ao cair da tarde, o martelete do mecanismo do relógio fez ressoar o pesado sino de bronze. Era 28 de novembro de 1911, às 18 h. O relógio sofreria avarias em 1913, na virada da noite do dia 03 para o dia 04 de abril, com a queda de um raio, danificando o mecanismo. Este foi o único registro de um período em que o relógio da Matriz ficou sem funcionamento. Após este acontecimento, existe um vácuo temporal sobre a história do relógio da torre da Matriz.
Mas a chegada de padre Ernesto Tancredo traria para a memória histórica da sociedade miraiense algo além dos registros documentais. Este fato se consolida na pessoa do conhecido Sebastião da Igreja. Ao longo de mais de seis décadas, e sem registros de intervenção técnica, o mecanismo foi acompanhado de perto, cotidianamente pelo saudoso Sebastião Acácio Mateus, singular Sacristão da Igreja Matriz de Santo Antônio. Um oficio sagrado até o ano de 2010, quando Sebastião Acácio, por imposição da vida deixou o ofício da sacristia e o zelo pelo relógio da torre da Matriz. Seu falecimento em 2011 lentamente ocasionou falência das engrenagens do mecanismo do relógio Michelini, já centenário por tratar-se de um objeto da primeira geração de sua linha de produção. E muito embora houvesse esforços de cidadãos da localidade na tentativa de revitalização do mecanismo, incluindo esforços da parte de padre Antônio Luiz da Silva, as engrenagens do relógio ficaram silenciadas por mais de 14 anos.
Mas esta Igreja Matriz e sua comunidade, sob a proteção do Angélico Santo Antônio de Pádua não caiu no esquecimento da Providência Divina. Um fato ocorrido sem que houvesse nenhum tipo de tratativa anterior e mesmo conhecimento entre as partes envolvidas traria de volta à vida o secular badalo de sino e a distinta marcação das horas no relógio da Igreja, como é identificado pela sociedade miraiense. A revitalização do mecanismo aconteceria pelo trabalho do senhor Lucas da Mata Lacerda, da cidade de Miradouro, Minas Gerais.
Eis que assim se fez, como narrado pelo próprio restaurador:
Dizem que nada acontece
por acaso. Eu creio que, na verdade, tudo acontece conforme a vontade e o tempo
de Deus. Cada encontro, cada palavra e cada oportunidade têm um propósito
maior, mesmo quando não o percebemos de imediato.
No dia 14 de agosto de
2025, eu e mais três amigas — Inês Leite, Arlete Vita e Rita Fava — fomos à
secretaria da Paróquia de Miraí para uma breve visita ao Padre Jorge Passon.
Ele foi nosso pároco de julho de 1984 a dezembro de 1984, na Paróquia de Santa
Rita de Cássia, em Miradouro. Durante a conversa, descobri que havia um relógio
na torre da Igreja Matriz que estava parado havia alguns anos. Foi então que
minhas amigas disseram:
— “O Lucas conserta ele
para o senhor.”
Imediatamente, o Padre
Jorge me levou até a torre para ver o velho relógio. À primeira vista, notei
que havia algumas peças avariadas e que a suspensão do pêndulo estava quebrada
— nada que estivesse fora do nosso alcance.
Alguns dias depois,
mandei fazer em Oliveira, Minas Gerais, uma nova suspensão e combinei com o
padre o dia para recolocar as peças no lugar. O mecanismo foi limpo, regulado e
restaurado. Um contrapeso da âncora e um alongador dos ponteiros foram refeitos
pelo torneiro mecânico Ronaldo Lobo, que nos ajudou com grande boa vontade e
dedicação.
Enfim, foi muito prazeroso
revitalizar e restaurar mais um dos poucos relógios Michelini que tive o
privilégio de conhecer. Trazer vida novamente e devolver o compasso das horas
ao povo de Miraí foi uma experiência gratificante e abençoada.
O trabalho do senhor Lucas da Mata foge da mera manutenção e restauro. Está na dimensão da preservação da memória, do Patrimônio Histórico e da identidade social. O serviço colocado ao favor da Igreja Matriz de Santo Antônio tornou-se desta forma capaz de ligar o tempo, a história, devolvendo à sociedade a noção do que se conhece por presentísmo, onde não existem passado, e futuro. Não questionamos de onde vem a força motriz que move o mecanismo do relógio da Igreja. Sabemos apenas o momento presente, o agora eternamente, por que nenhum cidadão pergunta sobre as horas passadas ou a que será no futuro próximo lembrando que existe um mecanismo impulsionando a ação das engrenagens. Existe somente a expressão basilar, o relógio da Igreja bateu 2 horas... está dando 6 horas no relógio da Igreja.
E assim, na devida proporção de cada agente, em sua temporalidade, o belíssimo trabalho do senhor Lucas da Mata Lacerda nos devolveu o vislumbre dos antepassados miraienses, que se encantaram por gerações ao ver e sentir, através do badalo do sino secular o compasso das horas deste monumento histórico, cuja família de mecanismos se encontram alojados em históricas paisagens urbanas do Brasil, como na Faculdade de Medicina da USP, no Museu de Arte Sacra de Cuiabá/MT entre outros ainda existentes.
Produção textual. 11 de dezembro de 2025. AML. Academia Miraiense de Letras
Lucas da Mata Lacerda - Restaurador, historiador e artesão; Sérgio Antônio de Paula Almeida - Titular da Cadeira I – Patrono: Prof. Alberto Montalvão